UMA CHAMA QUE PASSA DE MÃO EM MÃO
Jorge papapá
Conheci Godi no decorrer dos anos 70, quando Salvador parecia guardar dentro de si um trovão. Havia a cidade das ladeiras, dos casarões e do mar, mas havia também uma outra, subterrânea, feita de inquietação, música, teatro, artes plásticas e corpos que começavam a descobrir a força da própria voz.
Foi nesse território que encontrei Antonio Godi e Lia Spósito. Eles já militavam nas artes, criando brechas onde quase só havia paredes. Através do teatro, nossas trajetórias se cruzaram, e assim cheguei à montagem de Usura Corporation, do grupo Palmares Iñaron.
Carlos Pitta havia iniciado a direção musical, mas precisou se afastar. Godi e Lia então me convidaram para assumir essa função. Entrei pela música, mas logo percebi que aquela música já estava ali antes de mim: estava nos corpos, nas palavras, nos silêncios, na memória e na ancestralidade daqueles artistas.
O elenco reunia atores de alguma experiência, entre eles Kal Santos, Beto Magalhães e Ana Sacramento. Eles não entravam em cena apenas para representar. Entravam para ocupar. O palco, naquele momento, era também território de identidade, resistência e afirmação.
O Palmares Iñaron – Teatro, Raça e Posição, criado em 1976, não era apenas um grupo teatral. Seu próprio nome já era uma tomada de posição. Em plena ditadura, falar de racismo, exploração, imperialismo e identidade negra era também desafiar o silêncio imposto à sociedade.
Mas aquela história não começava conosco.
Antes, havia Mário Gusmão, pioneiro da cena negra baiana e primeiro ator negro formado pela Escola de Teatro da UFBA. Sua trajetória no teatro, na dança e no cinema abriu caminhos para muitos que vieram depois. Mário foi mais que um grande artista: foi uma ponte entre gerações, uma presença que ajudou a transformar a ausência em possibilidade.
E essa história continuaria a se multiplicar.
Antônio Pitanga, também formado pela Escola de Teatro da UFBA, atravessaria o teatro e o Cinema Novo levando consigo uma presença negra que já não aceitava permanecer atrás das grades — imagem que marca sua própria juventude, quando ainda não podia frequentar determinados espaços teatrais de Salvador.
Depois viriam outras gerações e outras linguagens: Rai Alves, Luís Miranda, Lázaro Ramos e tantos outros artistas negros que ampliaram os caminhos abertos por aqueles que vieram antes.
Não são a mesma história. Não pertencem ao mesmo tempo. Mas fazem parte de uma mesma corrente.
Porque uma tradição não é uma fotografia.
É um rio.
Enquanto o Palmares Inaron ocupava os palcos, Salvador também ocupava as ruas. O surgimento dos blocos afro, especialmente o Ilê Aiyê, fazia ecoar no carnaval aquilo que o teatro afirmava em cena: a beleza negra, a ancestralidade, a memória e o direito de contar a própria história.
Teatro e rua.
Palco e tambor.
Palavra e corpo.
Tudo parecia fazer parte de uma mesma respiração.
Quando hoje penso em Usura Corporation, não lembro apenas de uma montagem dos anos 70. Lembro de uma cidade que começava a se olhar no espelho e a recusar o reflexo que lhe haviam imposto.
Lembro de Godi.
De Lia.
De Kal, Beto e Ana.
E, por trás deles, vejo Mário Gusmão, Antônio Pitanga e tantos outros que abriram caminhos.
Vejo também os que vieram depois.
E compreendo que talvez essa seja a verdadeira história: uma chama que passa de mão em mão.
Mário acendeu uma parte dela. Outros a carregaram. O Palmares Iñaron transformou-a em teatro. Os blocos afro levaram o fogo para as ruas. E novas gerações receberam essa mesma chama, acrescentando suas próprias cores à luz.
Os palcos podem ser desmontados.
Os cenários desaparecem.
As luzes se apagam.
Mas aquilo que um artista acende dentro de outro não se apaga.
Talvez seja essa a maior herança daqueles anos: descobrir que a arte pode sobreviver ao tempo porque ela não mora apenas nos palcos. Mora na memória de quem viu, no corpo de quem participou, na voz de quem contou e, sobretudo, naqueles que vieram depois.
Hoje, quando olho para trás, percebo que Usura Corporation foi apenas uma cena de uma história muito maior.
Uma história que começou antes de nós e continuou depois.
Uma história feita de homens e mulheres que, muitas vezes, precisaram transformar o próprio corpo em território de resistência.
E talvez seja por isso que ainda consigo ouvir aquela música.
Ela vem de longe.
Vem de Mário Gusmão.
Vem de Pitanga.
Vem de Godi e Lia.
Vem de Kal, Beto e Ana.
Vem dos tambores do Ilê.
Vem de todos aqueles que fizeram da arte uma maneira de existir.
E continua chegando até nós.
Porque algumas cortinas, quando se fecham, não encerram o espetáculo.
Elas apenas escondem o palco por alguns instantes.
E quando a luz volta — anos depois, décadas depois — descobrimos que o palco ainda está lá.
E que a nossa história ainda está em cena.
Por Jorge Papapá